Está em: Início

P: Concorda com as privatizações propostas no PEC (TAP, Galp, EDP, Fidelidade, REN)?


Sim
Não
Talvez
Não sei


Votações anteriores


1 2 3 45 6 7 8 9 10
Obama aposta na energia nuclear

Barak Obama decidiu apostar na energia nuclear depois de ter manifestado cautelas sobre a matéria durante a campanha eleitoral.

O projecto de orçamento da Administração norte-americana para o ano em curso prevê um investimento significativo na construção de novos reactores nucleares, facto que representa uma opção assumida por esta fonte de energia. Depois dos cuidados com que abordou o tema durante a campanha que o levou à presidência, Obama elege agora o nuclear como forma de articular as diferentes posições em questões ambientais e também a nova relação de forças no Senado, onde os republicanos adquiriram maior margem de manobra ao conquistarem no Massachusetts o lugar anteriormente ocupado por Robert Kennedy.

No recente discurso sobre o estado da União, Obama afirmou que a maneira de criar novos empregos no sector das energias limpas significa “construir uma nova geração de centrais nucleares seguras e não poluentes”. Fontes citadas pela “Associated Press” salientam que o presidente alterou a sua posição em relação aos cuidados anteriores porque necessita de apoios de congressistas democratas pró-nuclear e republicanos para conseguir fazer passar legislação ambiental no ano em curso, que é também ano eleitoral no Congresso. Membros ligados à equipa presidencial asseguram que as decisões tomadas reflectem o apoio dado desde sempre por Obama à energia nuclear. No entanto, a inclusão deste tema de modo mais decidido no discurso presidencial segue-se à tempestuosa reacção republicana à aprovação em Junho passado de legislação que limita, ainda que de modo muito moderado, a emissão de gases que alimentam o efeito de estufa.

Os republicanos e alguns eleitos democratas têm criticado o facto de Obama evitar abordar a energia nuclear quando fala do combate ao aquecimento global e de fontes de energia não poluentes.

O discurso sobre o estado da União e agora a política orçamental adoptada já provocaram os primeiros sinais de satisfação entre os conservadores. O senador republicano Lamar Alexander, do Tessesse, declarou que observa “uma evolução da atitude presidencial em matéria de energia”. Até agora, disse, “a Administração tem seguido uma política nacional de moinhos de vento em vez de uma política nacional de energia, o que é o mesmo que ir para a guerra em barcos a remos”. Conhecido pelas suas propostas de construção de 100 centrais nucleares durante os próximos 20 anos, o senador Lamar considerou as palavras presidenciais sobre o nuclear como a parte mais importante do seu discurso sobre o estado da União.

No projecto de orçamento, a Administração prevê uma verba de 54 mil milhões de dólares para desenvolvimento da produção de energia nuclear no país.

Nos Estados Unidos estão actualmente em funcionamento 104 reactores nucleares em 31 Estados, produzindo cerca de 20 por cento da electricidade do país. De acordo com as fontes citadas pela agência “Associated Press”, esse volume representa, por outro lado, 70 por cento da energia produzida através de meios não poluentes como o vento, o sol e a água. Esta interpretação estatística é polémica por causa da junção destas fontes de energia sob a designação de “não poluentes” ou “limpas”.

Textos elaborados por legisladores e “lobbies” actualmente circulando no Congresso defendem que os Estados Unidos devem aumentar o número de centrais nucleares em actividade de modo a reduzir em 80 por cento a emissão de gases com efeito de estufa. Um estudo elaborado pela Agência de Protecção do Ambiente defende que até 2050 deverão entrar em funcionamento mais 180 reactores de nova geração.

A questão energética continua a ser transversal dentro do espectro político dominante norte-americano. O senador democrata John Kerry, o independente Joseph Lieberman e o republicano Lindsey Graham coincidem na opinião segundo a qual Obama tem que investir muito mais na energia nuclear e na pesquisa de petróleo e gás “off-shore” se pretende os 60 votos no Senado necessários a uma legislação ambiental à prova de “flibusteiros”.

Os legisladores mais próximos dos círculos neo-conservadores exigem do presidente uma opção “robusta” pela energia nuclear mas são contra a inclusão desta matéria no plano geral de combate à emissão de gases poluentes, que consideram a causa da produção de energia muito cara.

James Connaughton, ex-presidente do Conselho de Qualidade Ambiental da Casa Branca na Administração Bush considera que quando se fala de votos, a maioria dos que os têm no Congresso “estão do lado da barricada dos que pretendem a restauração da liderança da América na produção de energia nuclear”. Connaughton trabalha agora para a “Constellation Energy”, empresa de Baltimore que tem encomendas de cinco reactores nucleares e está em vias de obter mais.

Quanto à organização ambientalista norte-americana Amigos da Terra, as posições de Barak Obama sobre a energia nuclear são como “um pontapé na boca”.

Fonte: BE Internacional

Ver comentários (0) - ComentarCategoria: Textos > Comentários
Criado em: 2010-02-01 23:46:23
Manuel Serra (1932-2010)

Ver comentários (1) - ComentarCategoria: Textos > Notícias
Criado em: 2010-02-01 20:23:40
31 de Janeiro de 1891

Ver comentários (0) - ComentarCategoria: AgitProp > Vídeos
Criado em: 2010-01-31 23:22:38
Para ajudar um País é preciso ocupá-lo?

Para ajudar um País é preciso ocupá-lo?Alan Joyandet, ministro francês encarregado do auxílio humanitário ao Haiti, teve um confronto verbal com um alto responsável militar norte-americano quando pretendia organizar um voo de evacuação de vítimas no aeroporto de Port-au-Prince. Depois desabafou: “Trata-se de ajudar o Haiti, não de ocupar o Haiti”. O episódio merece reflexão.

A organização Médicos Sem Fronteiras já tinha dado o alerta quando revelou ao mundo que centenas de vítimas do terramoto do Haiti estavam a ser prejudicadas pelo tipo de opções que o controlo militar norte-americano do principal aeroporto do Haiti estava a fazer. Por causa disso, aviões transportando médicos, medicamentos e outros meios de apoio aos feridos atingidos pela catástrofe já tinham sido obrigados a voltar para trás. Por causa disso, médicos no terreno não conseguiram salvar mais vidas ou foram obrigados a recorrer com mais frequência ao indesejado recurso da amputação para garantir sobrevivências.

O assunto instalou-se na ordem do dia apesar da enorme barragem de informação promovendo a operação humanitária fardada dirigida pelo Pentágono e pelo Departamento de Estado que os Estados Unidos desenvolvem no Haiti. A legítima dúvida é: assistimos a uma acção de socorro ou a uma invasão militar?

Para ajudar um País é preciso ocupá-lo?O presidente francês desautorizou o seu ministro e minimizou a importância do desabafo acima transcrito, certamente para não incomodar Washington. Perante o cenário de guerra montado nos escombros da catástrofe não há, porém, manobra diplomática capaz de apagar das memórias a exclamação então proferida por um desalentado habitante de New Orleans vítima do Katrina: “pedimos comida e alojamento e o governo manda-nos homens armados”. A frase correu mundo e, como se sabe, no terreno não estavam apenas membros das forças armadas mas também mercenários de empresas mal afamadas, como a então denominada Blackwater, contratadas pelo governo.

À frente da operação de socorro de New Orleans esteve o presidente George W. Bush e o desempenho alcançado contribuiu para deixar ainda mais por terra o seu abalado prestígio.

Por iniciativa do seu sucessor, Barak Obama, George W. Bush exerce agora funções de coordenação das iniciativas de socorro ao Haiti.

No terreno, o controlo das operações norte-americanas foi atribuído ao Comando Sul, o Southcom, que tem o quartel-general em Miami. Em termos gerais, a missão desta estrutura militar é a de “comandar operações militares e permitir uma cooperação segura para os objectivos estratégicos dos Estados Unidos da América” em toda a região latino-americana. Como ainda notou recentemente o director de Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, é o Southcom, por exemplo, que coordena a rede de 13 bases militares norte-americanas que cercam a Venezuela.

O general Douglas Fraser, comandante do Southcom, explica que a operação no Haiti se subordina ao conceito “dos três C’s”: “comando, controlo, comunicações”, de modo a que os Estados Unidos “possam compreender melhor o que está a acontecer”. O presidente Barak Obama solicitara aliás, no dia imediato ao terramoto, que os serviços militares norte-americanos traçassem “o mapa da destruição”. Daí que o primeiro sinal de auxílio oficial dos Estados Unidos ao Haiti – excluindo as organizações não-governamentais envolvidas desde a primeira hora nas acções internacionais de socorro – tenha sido o envio de aviões não tripulados, os drones, para cartografar a nova realidade.

Passando das palavras do general Fraser à prática, tropas norte-americanas (que podem chegar a 10 mil efectivos, entre eles dois mil marines) começaram por ocupar o aeroporto de Port-au-Prince, afastaram os operacionais haitianos e colocaram controladores de tráfego militares em funções, segundo informação do embaixador do Haiti em Washington; a seguir, tomaram conta do que restava das comunicações governamentais haitianas e assumiram o poder sobre as fontes de energia do país. O processo prossegue através da gestão dos transportes e das infra-estruturas.

Para ajudar um País é preciso ocupá-lo?O comportamento operacional norte-americano em território do Haiti coincide quase em absoluto com a teorização sobre a reacção à catástrofe haitiana produzida pelo think tank e poderoso lobby neo-conservador Heritage Foundation, identificado com os sectores republicanos mais militaristas e extremistas. Segundo esta organização, “o terramoto tem simultaneamente implicações humanitárias e de segurança nacional para os Estados Unidos”. Considera a Heritage Foundation que essas implicações requerem uma “resposta rápida, que terá de ser não apenas importante mas decisiva, a cargo das instituições militares, governamentais e civis, orientada a curto prazo pelo socorro ao Haiti e, a longo prazo, por um programa de recuperação e reforma do país”.

Pertence ainda à Heritage Foundation a tese segundo a qual “Cuba e Venezuela aproveitam o terramoto no Haiti e a fragilidade do governo de René Preval para tentar diminuir a influência dos Estados Unidos na região”. Daí também o cariz militar da operação de socorro.

De acordo com várias declarações de responsáveis dos Estados Unidos, a presença militar no interior do Haiti e o patrulhamento das águas territoriais deste país por embarcações da Guarda Costeira norte-americana relacionam-se igualmente com os problemas de imigração. A Guarda Costeira é conhecida nas águas das Caraíbas por ter um filtro muito especial, totalmente livre para os cubanos que procuram Miami e absolutamente estanque, por exemplo, para os haitianos. As autoridades norte-americanas de imigração já expulsaram para o seu país cidadãos do Haiti que tinham conseguido chegar a território dos Estados Unidos fugidos ao drama do terramoto.

O almirante James Watson da Guarda Costeira definiu o objectivo da missão em águas haitianas com as seguintes palavras: “trabalhar com o Departamento de Defesa, o Departamento de Estado e as várias agências governamentais para minimizar o risco de os haitianos saírem do seu país; queremos fornecer-lhes auxílio para que possam viver no Haiti”.

Quando a totalidade do contingente norte-americano estiver no Haiti, “para ajudar a restaurar a ordem”, o número de militares estrangeiros no país atingirá quase vinte mil efectivos, incluindo os da Minustah, a força da ONU.

Este contingente foi criado em 2004 para assumir o controlo do Haiti na sequência do ainda mal esclarecido golpe que depôs o presidente Jean-Bertrand Aristide, alegadamente envolvido em fraudes e corrupção. Forças militares norte-americanas apoiaram o golpe e foram substituídas depois pelos militares das Nações Unidas. Durante os últimos anos, o regime do presidente René Preval, agora relegado para segundo plano pela forma como os Estados Unidos responderam aos efeitos do terramoto, promoveu uma polémica reestruturação das forças policiais e militares. As forças armadas foram preparadas com a colaboração da DynCorp, empresa privada norte-americana de mercenários que figura entre as habituais contratadas do Pentágono. As forças policiais assimilaram membros dos esquadrões da morte envolvidos no golpe de 2004, muitos dos quais originários das milícias terroristas dos Tonton Macoute, guardas pretorianas dos ditadores Duvalier.

Marguerite Laurent, destacada advogada que colaborou com a administração de Jean-Bertrand Aristide, divulgou informações segundo as quais há anos que os Estados Unidos mantêm o petróleo que supostamente detectaram no Haiti como uma reserva para articular de acordo com a evolução da situação no Médio Oriente. A privatização dos portos haitianos de águas profundas permitiu entretanto às grandes companhias petrolíferas norte-americanas que deles se assenhorearam proceder a operações de refinação e de transporte em condições que não lhes seriam permitidas nos Estados Unidos por razões ambientais.

É de crer, perante o modo como as forças da Minustah foram afectadas pelo terramoto, sofrendo considerável número de vítimas mortais e a perda total de instalações, que as tropas norte-americanas assumam cada vez mais o papel que lhes estava atribuído desde 2004. O controlo militar e político dos Estados Unidos sobre o rumo dos acontecimentos presentes e futuros no Haiti será assim incontornável, como acontece há um século, com ou sem catástrofes naturais. Tal domínio é afinal tão endémico como a miséria a que a esmagadora maioria dos haitianos estão submetidos.

José Goulão

Fonte: The Week

Ver comentários (0) - ComentarCategoria: Textos > Comentários
Criado em: 2010-01-28 04:30:11

Ver comentários (0) - ComentarCategoria: AgitProp > Cartazes
Criado em: 2010-01-28 04:18:39
Um Timor-Leste à nossa porta

A recente greve de fome realizada pela activista saharauí Aminetu Haidar, após ter sido expulsa do Sahara Ocidental pelas autoridades marroquinas de ocupação, e a onda de solidariedade que ela gerou um pouco por todo o mundo fizeram lembrar o rastilho de indignação e o clamor de justiça que deflagraram quando dos últimos estertores da ocupação Indonésia na ex-colónia portuguesa de Timor-Leste.

A resistência corajosa e o apelo à justiça que essa frágil mulher reclamava para a sua situação — que apontava tão-somente como exemplo do sofrimento de todo o seu povo sujeito a ocupação e privado das mais elementares liberdades e direitos de cidadania — convenciam pela autenticidade e deitavam por terra a falsidade manifestada na argumentação do país ocupante ou nas derivas retóricas das diferentes diplomacias envolvidas.

DUAS INVASÕES E OCUPAÇÕES MUITO SEMELHANTES

Por estranho que possa parecer, a melhor maneira de mostrar a grave situação em que se encontra o Sahara Ocidental — um território bem próximo de Portugal — é compará-la com a que se viveu em Timor-Leste entre 1975 e 1999. Isto porque em Portugal muito se sabe sobre Timor-Leste, mas pouco, ou muito pouco, se conhece sobre o Sahara Ocidental. Se praticamente todo o Portugal se irmanou pela causa de Timor, porque não a mesma solidariedade para com o Sahara Ocidental? As questões de Timor e do Sahara são como duas gotas de água. Com a chegada da democracia à Península Ibérica, ambos os territórios deram passos no sentido da sua autodeterminação. Mas, antes que tivessem podido exercer esse direito, foram invadidos por países vizinhos em 1975, com apenas um mês de intervalo. Esses países vizinhos — a Indonésia e Marrocos —, viviam ambos sob uma ditadura brutal. Suharto e Hassan II usaram o mesmo falso pretexto para as anexações: uma reintegração dos territórios impedida pelo colonialismo…

Na realidade, Timor nunca fez parte de nenhuma unidade política que tivesse precedido a República Indonésia, nem o Sahara Ocidental jamais teve laços de soberania com o antigo sultanato de Marrocos — isso mesmo foi comprovado pela sentença do Tribunal Internacional de Haia em 1975. Contraditoriamente — porque ou se falava de reintegração ou de direito à autodeterminação — Suharto e Hassan II alegaram depois que, afinal, “através da ocupação”, os povos dos territórios ocupados tinham chegado a exercer aquele seu direito! No entanto, a ONU não reconheceu os pretensos actos de autodeterminação e manteve Timor-Leste e Sahara Ocidental na lista dos territórios não-autónomos do Comité de Descolonização.

Em ambos os casos houve práticas de genocídio e outras violações graves dos direitos humanos. É sabido que Timor-Leste sofreu mais mortos, mas, por outro lado, a sua população é dez vezes superior à do Sahara Ocidental. E se, por esse facto, os saharauís são mais vulneráveis, por outro lado beneficiaram da protecção da Argélia, e muitos puderam refugiar-se na região argelina de Tindouf, junto à fronteira com o seu país. Tanto em Timor como no Sahara Ocidental, a potência ocupante praticou massacres, utilizou napalm e fósforo, provocou fome, cometeu execuções extra-judiciais, torturou indiscriminadamente, raptou crianças e levou-as para fora do território, deteve pessoas por tempo indefinido e sem culpa formada, e usou de julgamentos-farsa, com sentenças iníquas e pesadas. O ocupante praticou igualmente o genocídio cultural, proibindo o ensino das línguas locais, ilegalizando certos costumes e “transmigrando” dezenas de milhares dos seus nacionais para os territórios ocupados, tentando enfim fazer dos timorenses indonésios e dos saharauís marroquinos. E, claro, pilhou despudoradamente os recursos naturais de ambos os territórios.

TIMOR-LESTE INDEPENDENTE, EXEMPLO PARA O SAHARA OCIDENTAL

Em Timor-Leste, por terrível e dantesca que tenha sido a ocupação indonésia, ela pertence já ao passado. O mesmo não se pode dizer do Sahara Ocidental. O território continua ocupado, as violações dos direitos humanos persistem diariamente sem que a opinião pública delas tenha conhecimento. Marrocos mantém fechado o território ao escrutínio dos observadores internacionais e dos órgãos de Comunicação Social. Basta ler os últimos relatórios da Amnistia Internacional ou da Human Rights Watch para se perceber como vivem os saharauís em El Aiun e noutras zonas, como foram degradados a cidadãos de segunda no seu próprio país. As prisões continuam a abarrotar e todos os dias recebem novos detidos. Particularmente conhecida pelas condições desumanas e humilhantes em que os detidos se encontram é a chamada Prisão Negra de El Aiun. No ano de 2005 os activistas presos conseguiram fazer chegar ao mundo exterior algumas fotografias que denunciam essas condições. A resposta de Rabat foi negar os factos, sugerir que as fotografias não eram autênticas mas encenadas e, para além disso, aumentar a repressão sobre os saharauís dentro e fora das prisões.

Vários advogados espanhóis têm relatado com minúcia os atropelos ao direito, os truques mesquinhos e as falsas acusações que as autoridades administrativas e judiciais utilizam para reprimir a resistência dos saharauís e levá-los ao cárcere por longos anos. Todo o Sahara Ocidental ocupado por Marrocos é actualmente uma enorme prisão.

REFUGIADOS HÁ 35 ANOS!

É quase inacreditável que mais de 150.000 pessoas consigam sobreviver numa zona desprovida de vegetação, toda ela areia e pedras — com temperaturas elevadíssimas durante o dia e muitas vezes abaixo de zero durante a noite —, e isto durante mais de trinta e cinco anos, nos campos de Tindouf, no extremo sudoeste da Argélia, naquela ponta do território onde se encontram as fronteiras da Argélia, Marrocos, Sahara Ocidental e Mauritânia. Dependendo, para as mais básicas necessidades, como água, comida, roupa e materiais para as tendas, da ajuda humanitária da Argélia e da Europa. Os campos são visitados continuamente por representantes de organizações internacionais, por jornalistas e por activistas de direitos humanos. Todos são unânimes em reconhecer que a vida em Tindouf é extremamente dura. Mas qualquer visitante chega à mesma conclusão, quando circula livremente por entre as tendas e as pequenas casas de adobe, quando aceita o convite para tomar o tradicional chá de menta: aquele povo deseja ardentemente regressar ao seu país, mas para viver em liberdade e não sob o jugo marroquino.

A REALPOLITIK É CÚMPLICE DE MUITOS CRIMES E EXPLORAÇÃO DE RECURSOS ILEGAIS…

O porquê da indiferença dos portugueses perante o sofrimento dos saharauís está no desconhecimento — fruto do silêncio de uma grande parte dos media —, conscientes ou não da preocupação do governo de Lisboa em não importunar Rabat. Isso explica-se, por sua vez, pelos grandes interesses económicos em jogo e pela influência de Marrocos sobre muitos políticos. Numa palavra, a realpolitik.

A mesma realpolitik que Durão Barroso criticava na Austrália, por esta partilhar com a Indonésia o petróleo de Timor-Leste ilegalmente ocupado. A mesma realpolitik que ele agora como presidente da Comissão Europeia pratica, ao ter assinado com Marrocos um acordo que permite aos barcos espanhóis e portugueses pescar em águas pertencentes ao Sahara Ocidental ilegalmente ocupado. Acordo que torna a Europa e o nosso país, no dizer bem sugestivo de um eminente perito em Direito Criminal Internacional, o professor americano Roger Clark, um “receptador de bens roubados”.

Actualmente, a UE e o Reino de Marrocos estão em conversações no sentido de aprofundarem os seus laços de cooperação através da concessão do Estatuto Avançado a Marrocos mas, até agora, não tem havido qualquer menção nos relatórios das conversações sobre o que tenha sido feito para impedir que o Sahara Ocidental ocupado esteja incluído neste acordo de cooperação. Se a UE concedesse de facto o Estatuto Avançado ao Sahara Ocidental ocupado, através das suas negociações com a potência ocupante, iria dar um lamentável sinal de apoio às reivindicações infundadas de Marrocos sobre o território. E, como consequência, a UE poderia prejudicar os esforços da Organização das Nações Unidas (ONU) para a descolonização do território.

Por força do direito internacional consuetudinário, a UE e os seus Estados membros têm o dever de não reconhecer a anexação ilegal do Sahara Ocidental por Marrocos e de apoiar a descolonização do território. É também uma obrigação moral, uma vez que o povo saharauí sofre, quer no exílio quer sob a grave violação dos direitos humanos cometidos pelas forças marroquinas nos territórios ocupados do Sahara Ocidental.

A UE deve, por isso, certificar-se de forma inequívoca que o Sahara Ocidental fique excluído da aplicabilidade territorial do Estatuto Avançado, sem delegar essa responsabilidade a Marrocos. Se a UE fizer tal precisão estará a seguir o exemplo dos Estados Unidos da América, que excluíram especificamente o Sahara Ocidental do seu acordo de comércio-livre com Marrocos. Estará também a seguir o seu próprio exemplo, uma vez que excluiu os territórios palestinianos do Acordo de Associação UE-Israel.

Fica aqui um apelo à consciência dos portugueses. Que digam não ao acordo de pescas, que se recusem a comer peixe roubado aos saharauís, que exijam que o acordo que saia das conversações sobre o Estatuto Avançado especifique claramente que a sua aplicabilidade não se estenderá para sul da fronteira meridional internacionalmente reconhecida de Marrocos, ou seja, o paralelo 27 ° 40’ N. Que obriguem o governo português a tomar uma posição de defesa do direito à autodeterminação do Sahara Ocidental coerente com a que tomou em relação a Timor. Que apoiem, moral e materialmente, um país oprimido que luta pela sua libertação. Um Timor-Leste à nossa porta.

António Baptista da Silva Pedro Pinto Leite


Fonte: Informação Alternativa

Ver comentários (0) - ComentarCategoria: Textos > Opinião
Criado em: 2010-01-28 04:17:00

Ver comentários (0) - ComentarCategoria: AgitProp > Cartazes
Criado em: 2010-01-27 02:30:06
A década entra mal

Qualquer cidadão do mundo que tenha o privilégio de não estar preocupado com a sua sobrevivência amanhã e ouça, leia ou veja as notícias – um privilégio, porque pertence a uma pequeníssima minoria dos 6,8 biliões de seres humanos – tem razões para estar perplexo e apreensivo. E teria ainda mais razões se soubesse do que não sai nas notícias dos grandes meios de comunicação.

No dia de Natal um jovem nigeriano quase fez explodir um avião enquanto este se preparava para aterrar numa cidade norte-americana. Se tivesse tido êxito teriam morrido centenas de pessoas entre passageiros, tripulantes e habitantes da zona onde o avião caísse. A perplexidade é esta: como é possível que isto tenha acontecido no país detentor das mais sofisticadas tecnologias de vigilância e segurança e, para mais, quando o jovem extremista era conhecido dos serviços secretos e tinha sido denunciado pelo seu próprio pai junto das embaixadas ocidentais? Como é possível que o país mais poderoso do mundo tenha revelado tal debilidade? A apreensão é esta: como vão os EUA reagir? Vão abrir mais frentes de guerra? Depois do Iraque, do Afeganistão e do Paquistão seguir-se-á o Irão, que as notícias dizem ter afinal planos para construir uma bomba atómica, e o Iémen, onde o jovem terá sido treinado? Que outros países se seguirão? Poderá algum país estar livre de vir a ser alvo desta guerra?

A perplexidade redobraria se ao cidadão chegasse notícia de duas especulações perturbadoras: os serviços secretos correram o risco de fazer entrar o jovem nos EUA porque o pretendiam contratar como agente duplo, tal como se especula que o mesmo terá acontecido com os serviços secretos dinamarqueses, que igualmente conheciam bem quem tentou matar o cartoonista; a informação sobre o jovem foi deliberadamente bloqueada para que o atentado ocorresse e criasse uma onda de revolta que levasse a opinião pública norte-americana, não só a justificar mais guerras numa região rica em petróleo, mas também a pensar que um presidente negro e com o nome intermédio Hussein não lhes garante segurança e lhes está a roubar um país que foi feito por brancos e para brancos. Especulações disparatadas? A perplexidade maior é que sejam de todo feitas.

E a apreensão se transformaria em revolta se o cidadão comum soubesse: que, tal como o Iraque não tinha armas de destruição maciça, o Irão não tem nenhum programa de bomba nuclear, o que aliás está atestado por 16 agências do governo dos EUA, e que apesar disso Israel e os EUA continuam a preparar um ataque ao Irão; que os perigosos inimigos de hoje foram financiados no passado para destruir o nacionalismo de esquerda emergente, tendo sido assim que Israel financiou o Hamas contra o movimento de libertação palestiniana, e os EUA, os talibãs contra o governo de esquerda e seus aliados russos; que a guerra supostamente patriótica e para defender a democracia está a ser crescentemente travada por forças mercenárias, para quem a guerra é um negócio (no atentado bombista de 30 de Dezembro no Afeganistão – cometido por um agente duplo jordaniano contratado pelos EUA para chegar à liderança da Al Quaeda – dois dos “agentes” da CIA mortos eram, de facto, mercenários da empresa Blackwater, considerada o exército mercenário mais poderoso do mundo); que os maiores custos da guerra, para quem a sofre, são os que não são contados como tal, de que é exemplo trágico a epidemia de cancro e de bebés nascidos com deformidades que está a assolar o Iraque, relacionada com o urânio deixado no solo pelas bombas “aliadas”, um problema que, aliás, começa também a afectar os soldados aliados e os seus filhos; que no centro das desgraças que se advinham está um dos povos mais indefesos e abandonados do mundo, os palestinianos, encarcerados no seu próprio país, à mercê de um Estado ocupante, racista, com armas nucleares que nunca deixou inspeccionar, apoiado por um declinante centro do império e por um dos seus mais servis lacaios (o Egipto).

Boaventura de Sousa Santos

Fonte: Visão

Ver comentários (0) - ComentarCategoria: Textos > Opinião
Criado em: 2010-01-27 02:28:47