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Haiti - Outro Inferno na Terra

 

Para o Haiti não bastava a decrepitude humana típica das últimas décadas: um estado de subdesenvolvimento crónico tornou-se imperativo geração post geração, sem possibilidades políticas, económicas e sociais para superar a crise continuada em grande parte imposta pela conjunção neo liberal que tem atingido a humanidade e o planeta desde o fim da IIª Guerra Mundial e que se agravou desde o final da “Guerra Fria”.

As esperanças que fossem trasladadas para o próprio povo as capacidades para alterar profundamente, a partir das causas económicas e sócio-políticas, o pendor da situação, acabaram por se desvanecer com o derrube do Presidente democraticamente eleito Jean-Bertrand Aristide e o Haiti, o país mais pobre da América, continua condenado ao entorpecimento a que tem sido votado, como se fosse um desterro histórico da humanidade.

Os golpes contra o Presidente Jean-Bertrand Aristide foram o “modelo-prévio” que deram a sugestão para o golpe nas Honduras, em curso…

O Haiti é uma enorme favela, onde impera a decadência, a marginalidade, a desorganização, o subdesenvolvimento, condenado aos Índices de Desenvolvimento Humano mais baixos da América Latina.

A taxa de mortalidade infantil que ronda os 60 óbitos por 1000 crianças até aos 5 anos tem-se praticamente mantido e isso apesar dos esforços de solidariedade em matéria de educação e saúde de países como Cuba, que fica muito próxima do Haiti.

As potências que perseguem o “diktat” da lógica capitalista neo liberal nada fizeram para alterar o curso da história, muito pelo contrário: ao “controlarem” a situação, mantiveram o país cristalizado nas suas fórmulas arcaicas, “amarrando” o país ao sindroma dos problemas e inibindo o seu futuro.

A presença do Brasil no Haiti tem contribuído também para “baralhar” mais as coisas pois a actuação dos seus meios dá continuidade à tendência para ficar-se pela ramagem e evitar-se ir até às raízes para, a partir delas, se começarem a superar as sequelas que advêm do passado.

No dia em que três terramotos sucessivos atingiram em cheio o Haiti, (um deles o de maior proporção em 200 anos de registos no país), ficou ainda mais evidente o descalabro em que se encontra a parte ocidental da Hispaniola e as imagens que são transmitidas para todo o mundo, são o exemplo dum autêntico inferno na Terra, em pleno século XXI.

Caos, desorganização e o espectro de riscos de toda a ordem (para muitos o pior está para vir), pesam sobre o Haiti e sobre a consciência de todos nós cidadãos do mundo.

Os primeiros cálculos apontam para mais de uma centena de milhar de mortos e cerca de três milhões de pessoas afectadas, mas os grandes traumas vêm a seguir, num país em que o primeiro ministro veio rapidamente declarar que “a magnitude da tragédia supera as capacidades desta empobrecida nação”.

Urge uma acção concertada e polivalente de todos aqueles que estão prontos para a solidariedade e abram efectivamente espaços para ela, ao invés de abrirem espaços para interesses egoístas que só promovem ainda mais desgastes para a humanidade e o planeta.

Auxílio de todo o lado está a chegar neste momento ao Haiti, 24 horas depois do desastre provocado pelos três terramotos sucessivos.

Desde a União Europeia, passando pela Venezuela, pelos Estados Unidos, pela China, da pequena nação vizinha, a República Dominicana, para não falar de Cuba que mantém o estandarte da solidariedade sempre de pé, todos manifestam a sua disposição em dar a sua contribuição para fazer face à hecatombe natural que está a derivar para a hecatombe humana e ambiental no pequeno país das Caraíbas.

Os médicos cubanos que se encontram no Haiti prestam auxílio em tempo real e começaram a ser reforçados pouco tempo depois da catástrofe natural.

Cuba está experimentada na assistência a catástrofes como tsunamis, furacões e terramotos e chegou mesmo a oferecer aos Estados Unidos os serviços da Brigada Henry Reeves, (o nome é de um médico norte americano que lutou pela independência de Cuba) a fim de socorrer New Orleans em Setembro de 2005, o que por estúpido orgulho não foi aceite.

Essa mesma Brigada que estava mobilizada e em prontidão, acabou por intervir no distante Cachemira, integrando os esforços de resposta perante a catástrofe dum mortífero terramoto em Outubro de 2005, instalando 7 bases e 30 hospitais de campanha.

Isso é tanto mais notável quanto, para além da distância do Paquistão de Cuba, não havia relações diplomáticas entre os dois países!

O actual Ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodriguez, integrou a Brigada e perfez um ano completo de apoio médico nas escarpadas montanhas do Cachemira, numa altura em que os corpos médicos de Cuba trabalharam lado a lado com o socorro norte americano e europeu.

Há cada vez mais vozes levantando-se a favor do incremento de contactos dos Estados Unidos com Cuba a fim de socorrer quando eclodem calamidades naturais em qualquer parte do mundo.

O Cubadebate elaborou um artigo a esse propósito a que juntou a estatística disponível sobre a actuação da Brigada Henry Reeves desde Setembro de 2005, a latitudes tão distintas como Guatemala, Paquistão, Bolívia, Indonésia, Peru, México e China.

O Google Earth passou a dar auxílio em tempo real de mapas e vídeos a fim de dar a sua contribuição para os socorros perante um terramoto 35 vezes mais potente que a bomba atómica que explodiu em Hiroshima e cujo epicentro se localizou a 15 km a sudoeste da capital Porto Príncipe.

África uma vez mais prima pela ausência em relação às primeiras horas: não existem em África instrumentos capazes para prestar auxílio perante catástrofes do género em cima do acontecimento, também por que nas elites africanas não existe mais a cultura da solidariedade!

Angola inaugurou há poucos anos algumas capacidades de protecção civil que já têm feito intervenções pontuais meritórias dentro do território angolano, mas não estão preparadas para intervenções fora das fronteiras, muito menos fora de África.

“Ofuscado” com a propaganda massiva que foi montada com o CAN 2010, o povo angolano parece estar condenado a um torpor que contraria o que historicamente havia sido conseguido até 1985 com as “gloriosas FAPLA” e que teve como resultados finais as independências das ex-colónias portuguesas, do Zimbabwe, da Namíbia e o fim do regime de “apartheid” na África do Sul.

Haiti para a esmagadora maioria do povo angolano é algo desconhecido e isso muito embora o Haiti tenha uma história tão rica e inspiradora para o próprio movimento de libertação em África.

A inibição para a solidariedade internacional, um produto do capitalismo de desastre que atingiu Angola a partir da “guerra dos diamantes de sangue” e tem continuidade na “terapia de choque” que está a ser aplicada por um regime de tendência neo liberal cada vez mais evidente que se lhe sucedeu apesar do “socialismo democrático” do MPLA, para aqueles que continuam a ser consequentes e respeitosos do sentido histórico do movimento de libertação, perturba tanto como os terramotos!

A lógica da vida impõe-se cada vez mais a todos os cidadãos do planeta e, especialmente nas horas mais difíceis, ficar de fora da solidariedade é um acto de lesa humanidade que a ninguém honra e eticamente a todos empobrece!

Eis a síntese que Cubadebate publicou acerca da actuação desde Setembro de 2005 da Brigada Henry Reeves:

Desde a sua constituição a Brigada Henry Reeve cumpriu missões em 7 países, com a presença de 4 156 colaboradores, dos quais, 2 840 são médicos. › Guatemala (Furacão Stan): 8 de Outubro de 2005, 687 colaboradores, dos quais 600 médicos. › Paquistão (Terramoto): 14 de Outubro de 2005, 2 564 colaboradores, dos quais 1 463 médicos. › Bolívia (inundações): 3 de Fevereiro de 2006 - 22 de Maio, 602 colaboradores, dos quais 601 médicos. › Indonésia (Terramoto): 16 de Maio de 2006, 135 colaboradores, dos quais 78 médicos. › Peru (Terramoto): 15 de Agosto de 2007 - 25 de Março de 2008, 79 colaboradores, dos quais 41 médicos. › México (inundações): 6 de Novembro de 2007 - 26 de Dezembro, 54 colaboradores, dos quais 39 médicos. › China (terramoto): 23 de Maio de 2008 - 9 de Junho, 35 colaboradores, dos quais 18 médicos. Foram salvas 4 619 pessoas. Prestaram-se consultas médicas a 3 milhões e 83 mil e 158 pacientes. Foram intervencionados cirurgicamente 18 898 pacientes. Instalaram-se um total de 36 hospitais de campanha completamente equipados, os quais foram doados por Cuba (32 ao Paquistão, 2 à Indonésia e 2 ao Peru). Beneficiaram-se com próteses de membros em Cuba 30 pacientes afectados pelo terramoto do Paquistão.


Martinho Júnior


Fonte: Página Um

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Criado em: 2010-01-17 18:50:42